Agentes Limpos

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AGENTES LIMPOS NO COMBATE A INCÊNDIOS
Publicado por: Eng. Mario Nonaka

Os chamados agentes “limpos” ou gases substitutos do Halon 1301, estão relacionados na norma Clean Agent Fire Extinguishing Systems – NFPA 2001 (National Fire Protection Association) e os requisitos técnicos para sua aplicação, projetos e limitações, estão regulamentados na mesma. A norma NFPA 2001 original foi publicada em 1994 e sofreu revisões em 1996, 2000 e 2004. Lá podemos encontrar todos os agentes gasosos que estão aprovados e certificados para uso em sistemas de combate a incêndios em ambientes normalmente ocupados por pessoas. Dentre os quais, o gás que tem apresentado maior comercialização e aceitação no Brasil é o gás chamado FM-200 (HFC-227ea, heptafluorpropano), produzido originalmente pelo laboratório americano Great Lakes Chemical Corporation e depois denominado Chemtura. Posteriormente o gás FM-200 começou a ser fabricado pela DuPont americana, com a denominação FE-227ea e atualmente é fabricado pela Chemours que pertence ao mesmo grupo multinacional.

Devido a processos físico-químicos diferentes no combate a incêndios, a norma NFPA 2001 separa os agentes gasosos em dois grupos distintos. O primeiro grupo, denominado gases inertes, combate incêndios reduzindo a concentração de Oxigênio presente no ar até 12% em volume, que segundo a norma, é a mínima concentração de O2 sem riscos para a respiração humana. Os gases inertes são formados basicamente por uma composição de Argônio e Nitrogênio, e são comercializados pelos produtos Argonite, Argon e Inergen. O segundo grupo é formado pelos agentes ativos, cujo princípio de funcionamento não é a redução de Oxigênio como nos gases inertes, mas atua na retirada da energia térmica presente no incêndio e na interrupção da reação química em cadeia do processo de combustão. Os agentes ativos são formados por diversas famílias químicas não restringidas no Protocolo de Montreal (1987) e comercializados pelos produtos FM-200, FE-227, Novec, entre outros.

Com a finalidade de garantir a segurança em ambientes normalmente ocupados, a norma NFPA 2001, revisada em 2004, limita o tempo de exposição em seres humanos a 5 minutos, na concentração de NOAEL do agente extintor utilizado. O termo NOAEL significa No Observed Adverse Effect Level, ou seja, é a concentração máxima onde nenhum efeito adverso é observado em seres vivos. Esta limitação se aplica tanto aos gases inertes quanto aos agentes ativos.

Isto significa que em ambientes normalmente ocupados por pessoas, a norma limita a utilização de agentes gasosos a concentrações que não podem provocar efeitos nocivos à saúde, tais como problemas respiratórios, tontura, taquicardia, etc. Em termos práticos, por exemplo, o gás FM-200 é projetado para uma concentração entre 6,7% a 9% (NOAEL) e os gases inertes entre 34,2% a 42,7% (NOAEL).

Nos últimos tempos temos notado especial atenção da NFPA com relação à segurança física das pessoas, como no caso da NFPA 12 (Sistemas de CO2) revisada em 2005, que proíbe com algumas exceções, a instalação de sistema de CO2 por inundação total em ambientes normalmente ocupados por pessoas. Os sistemas de CO2 já existentes deverão ser revisados com a instalação de diversos dispositivos de segurança, até agosto de 2006. Mas este é um outro assunto, que será tratado em artigo futuro.

Atualmente quando necessitamos proteção contra incêndios, num ambiente normalmente ocupado com pessoas e equipamentos de alto valor agregado, temos que pensar em um agente extintor eficiente que não traga perigo aos funcionários, não agrida o meio ambiente, não danifique os equipamentos ou objetos, não provoque choque térmico, não deixa resíduos após a extinção e permita um rápido retorno à produção no local sinistrado. Em uma situação como a descrita acima, consultores em segurança com mais experiência, normalmente recomendam a utilização de um agente gasoso limpo, pois não existem no momento muitas alternativas técnicas ou de melhor tecnologia.

A implantação de sistemas fixos de gás FM-200 no Brasil teve como grande impulso o boom da telefonia nos anos 90, sendo adotados como sistema de proteção contra incêndios padrão, nas centenas de estações de telefonia celular em todo o país. Atualmente os sistemas de combate a incêndios por agentes gasosos têm como principal mercado o segmento de telecomunicações, processamento e arquivamento de dados, conhecida como TI (Tecnologia da Informação). Nestes ambientes de tecnologia sofisticada, das pequenas às grandes corporações, os cilindros dos agentes extintores gasosos cada vez mais, dividem o espaço com os modernos equipamentos de TI. Empresas de hosting, que alugam espaços de informática, aproveitam a segurança aos dados proporcionada pelos agentes gasosos, como marketing na captação de novos clientes. Nomes de agentes extintores aprovados na NFPA 2001 como FM-200, Argonite, Inergen, Novec, etc, já fazem parte do cotidiano de consultores, gerentes de TI e responsáveis pela segurança de informática.

Devido à atual facilidade na troca de informações e padrões de segurança adotados por empresas multinacionais e estatais, os sistemas fixos de agentes gasosos estão cada vez mais sendo requisitados nos setores industriais, órgãos públicos, comerciais e prestação de serviços.

Empresas com CPDs antigos protegidos por gás Halon 1301, com intuito de preservar sua imagem ambiental, estão rapidamente modernizando seus sistemas, substituindo-os por um dos gases aprovados na norma NFPA 2001. Pelas características semelhantes de pressão de armazenamento, concentração de projeto e desempenho no combate a incêndios, o gás FM-200 tem sido a opção preferida pelo mercado por exigir poucas modificações na instalação original. A alternativa dos gases inertes como Argonite ou Inergen é pouco utilizada por requerer mudança radical nas tubulações, e necessitar de espaço 5 vezes maior para armazenar os cilindros. Vale ressaltar que o gás Halon 1301, proibido para novas instalações pelo Protocolo de Montreal e resolução nr. 13/1995 do CONAMA – Conselho Nacional para o Meio Ambiente, tem seu descarte e reciclagem controlados pelo Ibama. A empresa contratada para executar a conversão do sistema de Halon, deverá apresentar ao contratante os certificados de destino solicitados pelo Ibama.

Uma vez que a eficiência do agente gasoso na extinção do incêndio, bem como os limites seguros de aplicação estão aprovados numa norma idônea e independente como a NFPA 2001, cabe ao usuário final a escolha de qual sistema de proteção utilizar.

A análise técnica deve ser realizada nos seguintes pontos:

  • Dimensões dos locais – normalmente para ambientes até 300 m², os sistemas fixos de gases ativos, possuem custo menor de implantação.
  • Concorrência de preços – o gás extintor deverá ter vários fornecedores tradicionais no mercado, o usuário não pode depender só de um fornecedor.
  • Aceitação do gás no mercado – verificar a quantidade de sistemas instalados no país, pois gases pouco comercializados, terão pouca oferta na hora da recarga.
  • Espaço para cilindros de gás – verificar disponibilidade no início do projeto.
  • Equipamentos certificados – são a garantia de confiabilidade do sistema de proteção.
  • Certificado de procedência do gás – evita o uso de gases não originais.

Ao consultarmos a norma NFPA 2001, notamos que ela aprova os diversos gases extintores, mas é omissa com relação aos equipamentos que compõem o sistema de combate a incêndios. Simplesmente fornece os requisitos técnicos a serem obedecidos pelos equipamentos como cilindros de armazenagem, difusores, válvulas automáticas, tubulações, que fazem o sistema de proteção operar. Estes equipamentos são testados e certificados por laboratórios especializados e independentes, tais como Factory Mutual – FM, Underwriters Laboratories – UL e LPCB, baseados em normas específicas.

Ao se optar por um equipamento certificado por laboratório reconhecido, é a garantia de que a performance e a confiabilidade do sistema de proteção instalado, serão idênticas à de um sistema similar instalado em qualquer país desenvolvido. Além disso, equipamentos certificados são normalmente recomendados pelas companhias seguradoras internacionais.

Mario Nonaka é engenheiro eletricista e trabalha há 35 anos na implantação de sistemas fixos de proteção contra incêndios. É diretor da Digisensor Sistemas de Segurança e coordenador da comissão de estudos da ABNT, que elabora a norma de agentes gasosos para proteção contra incêndio.

Notas no fim do artigo:

  • Argonite – marca registrada da Chemetron Fire Systems
  • FE-227 – marca registrada da DuPont
  • FM-200 – marca registrada da Chemours
  • Inergen – marca registrada da Ansul
  • Novec – marca registrada da 3M

SP 25/05/2014